Mudanças climáticas ampliam queimadas no Brasil e tornam incêndios mais destrutivos, aponta estudo lançado no INPE
Relatório internacional destaca que Amazônia e Pantanal enfrentaram níveis sem precedentes de fogo em 2024, impulsionados por secas extremas e temperaturas recordes
O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em São José dos Campos, sedia nesta quinta-feira (16), às 15h30, o lançamento nacional do relatório “Fogo em Foco: 2024–2025” e do estudo internacional “State of Wildfires 2024–2025”. A pesquisa reúne cientistas de mais de 20 países e analisa o papel das mudanças climáticas e do uso da terra na intensificação dos incêndios florestais em todo o mundo.
O documento destaca que os incêndios florestais no Brasil atingiram níveis sem precedentes em 2024, especialmente na Amazônia e no Pantanal. Segundo o estudo, as mudanças climáticas provocadas pelo ser humano tornaram os eventos de fogo na América do Sul muito maiores e mais destrutivos.
De acordo com os dados, no nordeste da Amazônia, as chuvas ficaram até 40% abaixo do normal durante a estação úmida de 2023–2024, e as temperaturas recordes no início de 2024 deixaram a floresta extremamente seca. O resultado foi a maior área de floresta queimada já registrada na região, com incêndios de intensidade e alcance sem precedentes.
No Pantanal, as queimadas de agosto e setembro de 2024 agravaram uma seca que se estende desde 2019. As chuvas ficaram abaixo de 60% da média, e as temperaturas ultrapassaram os 40°C em vários dias consecutivos. Em poucas semanas, as chamas consumiram áreas mais de três vezes maiores que o habitual, devastando ecossistemas de floresta e savana.
O estudo, que contou com a participação do Inpe, é coordenado pelo UK Centre for Ecology & Hydrology (UKCEH), pelo Met Office do Reino Unido, pela University of East Anglia (UEA) e pelo European Centre for Medium-Range Weather Forecasts (ECMWF). Mais de 60 pesquisadores e instituições de 20 países contribuíram para o relatório.
Os cientistas identificaram o papel combinado do clima, da densidade da vegetação e das fontes de ignição nos incêndios extremos. Desde 2016, cerca de 60% da perda florestal na Amazônia está associada a incêndios. O forte El Niño 2023–2024, o quarto mais intenso já registrado, agravou o calor e reduziu as chuvas na América do Sul tropical, ampliando as secas na Amazônia e no Pantanal–Chiquitano.
A pesquisa também aponta que os impactos foram significativos para comunidades rurais e indígenas, com piora na qualidade do ar e restrições no acesso à água potável. Mais de 70 mil pessoas foram afetadas pela escassez hídrica em meio à fumaça das queimadas.
“Os incêndios extremos recorrentes estão ameaçando os ecossistemas vitais da América do Sul, trazendo enormes custos sociais, econômicos e ecológicos. É fundamental que a crise do fogo esteja no centro das discussões da COP-30, em Belém”, afirmou a pesquisadora brasileira Liana Anderson, coautora do relatório.
O lançamento no Inpe reúne gestores públicos, pesquisadores, Corpos de Bombeiros, órgãos ambientais, Defesa Civil, representantes de instituições de ensino, organizações internacionais e sociedade civil. A edição brasileira do relatório, produzida em parceria com os Corpos de Bombeiros, combina dados científicos e operacionais para apoiar políticas públicas e ações de prevenção e resposta.