“A cabeça do meu filho ficou toda cortada”: mães denunciam complicações e sofrimento durante partos no HMUT
Mães relatam hemorragias, demora em cesáreas, induções prolongadas e complicações no pós-parto; Ministério Público acompanha o caso e Grupo Chavantes instaurou sindicância
A repercussão das denúncias envolvendo possíveis casos de violência obstétrica no Hospital Municipal Universitário de Taubaté (HMUT) continua gerando novos relatos de mães que afirmam ter enfrentado situações traumáticas durante o atendimento obstétrico na unidade. Após a série de reportagens publicada pelo T7 News, mulheres passaram a procurar a reportagem para compartilhar experiências envolvendo demora em procedimentos, sofrimento durante o trabalho de parto, hemorragias, complicações cirúrgicas e dificuldades no pós-parto.
Os depoimentos se somam às investigações já acompanhadas pelo Ministério Público, que apura possíveis irregularidades no atendimento prestado às gestantes.
Entre os novos relatos está o de Daisy Ellen, de 30 anos, mãe do pequeno Saimon, que completa três meses neste sábado (9). Segundo ela, a gestação era considerada de alto risco devido a um quadro de infecção urinária bacteriana, anemia e pressão alta.
Ela conta que fazia acompanhamento pela rede municipal e procurou o HMUT após piora no estado de saúde.
“Eu fazia acompanhamento na Mãe Taubateana. Minha gravidez era de alto risco por conta de uma infecção urinária bacteriana. Tomei antibiótico a gestação toda”, afirmou.
Segundo Daisy, ela foi internada após exames apontarem pré-eclâmpsia, anemia e agravamento da infecção. Dias depois, voltou ao hospital em razão da pressão alta e foi novamente internada.
“Naquela noite o médico falou que começariam a indução do parto porque eu estava em estado grave”, relatou.
Ela afirma que recebeu diversos medicamentos durante o processo de indução e que o estado físico começou a piorar rapidamente.
“Eu já não entendia mais nada. Só queria dormir. Meu marido me chamava para comer e eu não conseguia. Comecei a ter ânsia de vômito e não conseguia beber água”, disse.
Segundo Daisy, mesmo diante do agravamento do quadro, as tentativas de parto normal continuaram.
“Antes de eu ficar totalmente dopada, eu pedi cesárea. Falei que não tinha força para ter parto normal. A médica respondeu que cesárea só em último caso”, contou.
Ela afirma que a situação mudou apenas quando uma médica identificou hemorragia e descolamento de placenta.
“A médica falou: ‘Vou ter que correr com você para a sala cirúrgica’. Em menos de cinco minutos fizeram a cesárea”, relatou.
Segundo Daisy, o bebê nasceu com sinais de sofrimento fetal.
“Ele nasceu meio roxinho porque estava faltando oxigênio”, afirmou.
A mãe também relata dificuldades enfrentadas após o nascimento do filho. Segundo ela, semanas depois o bebê apresentou quadro de meningite.
“Meu filho ficou branco, roxo, sem reação na minha mão”, disse.
Ela afirma que inicialmente recebeu a informação de que os exames estavam normais, mas posteriormente veio o diagnóstico.
“Fiquei sete dias lá para, no final, me falarem que era meningite”, contou.
Daisy diz que ainda enfrenta consequências emocionais da experiência vivida.
“O que eu senti foi um quadro de terror. Era para ser um momento bonito, mas foi horrível”, afirmou.
Outro relato é o da professora de canto Abigail Nunes Teixeira de Moraes, de 32 anos, que afirma ter enfrentado dificuldades durante uma cesariana agendada previamente.
Segundo ela, a orientação médica era chegar ao hospital às cinco horas da manhã e permanecer em jejum desde a noite anterior.

“Cheguei às cinco da manhã e fui chamada para a cirurgia só às três da tarde”, afirmou.
Durante a espera, Abigail relata que começou a passar mal devido ao longo período sem alimentação.
“Muitas mães estavam passando mal de fome e sede”, disse.
Segundo ela, após receber glicose na veia, começou a sentir dores no peito e falta de ar.
“Eu pedia ajuda para a enfermeira e ninguém vinha”, contou.
Ela afirma que chegou a perder a consciência antes da cirurgia.
“Me deram Dramin na veia e eu apaguei na cadeira”, relatou.
Segundo Abigail, durante o procedimento os profissionais comentaram dificuldades relacionadas às cesáreas anteriores.
“A médica falou que meus órgãos estavam ‘embolados’ e precisariam ser separados”, disse.
Ela também afirma que perdeu muito sangue durante a cirurgia.
No pós-operatório, Abigail relata novos problemas.
“Uma enfermeira perfurou o dedo dela com a agulha enquanto retirava meu sangue e depois pediram para eu assinar um papel sem explicar direito”, contou.
A professora afirma que até hoje sente receio de retornar à unidade.
“Estou morrendo de medo de voltar lá”, declarou.
Outro caso relatado ao T7 News é o de Maria Eduarda, de 25 anos, mãe de um menino que atualmente tem um ano e um mês.
Segundo ela, durante as últimas semanas da gestação procurou o HMUT diversas vezes devido a dores intensas e sangramento.
“Chegava lá e eles mal examinavam. Me chamavam de fresca”, afirmou.
Ela relata que deu entrada no hospital com bolsa rompida, mas inicialmente foi informada de que o líquido seria urina.
“A médica disse que era urina e que eu seria medicada para depois ir embora”, contou.
Horas depois, uma nova avaliação constatou dilatação avançada e ausência de líquido amniótico.
Maria Eduarda afirma que, após horas de trabalho de parto e uso de medicação para indução, houve tentativa de retirada do bebê com uso de vácuo extrator.
“Começaram a tentar forçar e pegaram o vácuo extrator sem nem avisar a gente”, disse.
Segundo ela, o bebê sofreu traumatismo craniano e cefalohematoma.
“A cabeça do meu filho estava toda cortada”, relatou.

Ela afirma que o hospital não informou imediatamente sobre a gravidade do caso.
“Só tive ciência quando li os papéis da alta”, contou.
O menino segue em acompanhamento médico especializado e deverá realizar tomografia neste mês.
As denúncias envolvendo o HMUT passaram a ganhar maior repercussão após reportagens do T7 News reunirem relatos de mães, familiares e profissionais sobre possíveis falhas no atendimento obstétrico da unidade.
O Ministério Público instaurou procedimento para apuração dos casos. Documentos analisados pelo órgão apontam possíveis irregularidades relacionadas à condução de atendimentos e ao direito de autonomia das gestantes sobre o tipo de parto.
A assistente social Valéria Almeida afirma acompanhar diversos relatos semelhantes envolvendo mulheres atendidas na maternidade do hospital.
“O grupo cresce diariamente, com mulheres buscando acolhimento após experiências traumáticas”, declarou.
O vereador Diego Fonseca, do PL, informou que encaminhou ao Ministério Público relatos de aproximadamente 30 mães.
“Muitas mães não querem mais ter seus filhos em Taubaté com medo do que podem sofrer dentro do HMUT”, afirmou.
Outro lado
O Grupo Chavantes, responsável pela gestão do HMUT, informou que instaurou sindicância interna para apuração dos relatos divulgados.
Segundo nota oficial, os casos serão analisados “de forma responsável, criteriosa e transparente”, seguindo protocolos técnicos, éticos e legais.
A instituição afirmou ainda que permanece à disposição do Ministério Público e reforçou compromisso com “atendimento humanizado, seguro e responsável”.
A Prefeitura de Taubaté informou anteriormente que acompanha as apurações relacionadas ao caso.