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Região

“Show de horror”: relatos expõem denúncias antigas de violência obstétrica e precariedade no HMUT

Conversas revelam que reclamações sobre exposição de mulheres e falhas estruturais já haviam sido levadas à Prefeitura; hospital afirma ter aberto sindicância

Miriam Tellini | Data: 09/05/2026 15:39

Relatos de mulheres e profissionais que atuam na rede de proteção feminina voltaram a lançar luz sobre denúncias envolvendo o Hospital Municipal Universitário de Taubaté (HMUT).

Conversas obtidas pela reportagem mostram que reclamações sobre violência institucional, exposição de pacientes e falhas estruturais já haviam sido apresentadas durante a elaboração do Plano Municipal de Enfrentamento à Violência contra a Mulher mas, segundo integrantes da comissão, as demandas não teriam sido priorizadas pelo poder público.

Após a repercussão dos relatos, o HMUT informou, em nota, que abriu sindicância para apurar as denúncias.

Nas mensagens, uma integrante da comissão afirma que os problemas no HMUT foram apontados oficialmente durante a construção do plano devido ao volume de reclamações recebidas.

“Isso do HMUT já até pontuamos dessa violência na construção do plano pelas inúmeras reclamações, mas tem coisas que a prefeitura parece não querer ver ou priorizar”, diz o relato.

As conversas também mencionam denúncias relacionadas à exposição de mulheres dentro da unidade hospitalar.

“Reclamamos da maca passar pelo lado de fora de um quarto ao outro pela exposição da mulher”, afirma a mensagem.

Outro ponto citado envolve reclamações relacionadas ao Instituto Médico Legal (IML).

“Reclamamos do IML que nos chegou várias reclamações também”, completa a interlocutora.

Ainda segundo as mensagens, profissionais da comissão que atuam diretamente com mulheres relataram os problemas e solicitaram que medidas fossem incluídas como ações prioritárias no plano municipal.

Nos relatos das profissionais da comissão que trabalham com mulheres. E colocamos tudo como ação no plano.”

Apesar disso, há a alegação de que as medidas não apareceram na versão encaminhada posteriormente.

“Não colocaram nada no plano encaminhado e nenhuma previsão sobre medidas das denúncias que fizemos?”, questiona uma das mensagens.

“Pavor enorme”: advogada relata experiência traumática no HMUT

A advogada Dra. Elaine Cabral também relatou à reportagem uma experiência pessoal vivida no HMUT em janeiro de 2019. Segundo ela, o período de internação foi marcado por condições degradantes e sofrimento emocional.

“Mesmo já sendo advogada, senti um pavor enorme quando meu convênio ainda estava em período de carência”, afirmou.

Ela conta que permaneceu internada por três dias em uma enfermaria coletiva, convivendo com diferentes realidades de dor e vulnerabilidade.

“Fiquei internada por 3 dias no HMUT, em condições que pareciam um verdadeiro show de horror: calor de 39 °C, sem ventilador, sete mulheres no mesmo quarto — algumas prestes a ter seus bebês, outras já com eles nos braços e algumas vivendo a dor de tê-los perdido.”

Segundo o relato, as janelas estavam quebradas e cobertas com tapumes improvisados. A alimentação e as condições dos leitos também foram alvo de críticas.

A comida era de péssima qualidade e o colchão parecia um simples colchonete. Emagreci 4 kg em apenas 3 dias.”

Ela afirma que, diante das condições enfrentadas, decidiu pagar pelo parto em outro município.

“No fim, paguei pelo parto, e Luisa nasceu em Pindamonhangaba — é pindense.”

A experiência, segundo a advogada, teve impacto direto em sua trajetória profissional.

“Acho que foi ali que nasceu minha vontade de advogar na área da Saúde.”

Sindicância e debate sobre violência institucional

A abertura de sindicância pelo HMUT ocorre em meio ao aumento das discussões sobre violência obstétrica, acolhimento humanizado e estrutura da saúde pública. Especialistas apontam que a violência institucional contra mulheres não se limita a agressões verbais ou procedimentos inadequados, podendo incluir negligência estrutural, ausência de privacidade, exposição física e condições indignas de atendimento.

Os relatos e mensagens obtidos pela reportagem indicam ainda um possível descompasso entre as demandas apresentadas por profissionais da rede de proteção e as ações efetivamente incorporadas nas políticas públicas municipais.

A reportagem aguarda posicionamento oficial completo da Prefeitura de Taubaté sobre as reclamações mencionadas nas conversas e sobre eventual inclusão das medidas no Plano Municipal de Enfrentamento à Violência contra a Mulher.

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