logomarca T7News
Região

“Meu filho nasceu no chão do hospital”: relatos expõem denúncias de violência obstétrica no HMUT, em Taubaté

Pacientes descrevem sofrimento durante partos, demora no atendimento, falhas graves de assistência e até nascimento no chão da unidade; casos levantam pressão por investigação e resposta das autoridades

Miriam Tellini | Data: 04/05/2026 23:55

Relatos de possíveis casos de violência obstétrica e falhas no atendimento no Hospital Municipal Universitário de Taubaté (HMUT) vêm ganhando repercussão após denúncias feitas por pacientes, familiares e pessoas que acompanham a situação. As queixas envolvem complicações durante o parto, demora na assistência, problemas de higiene e falta de esclarecimento sobre os procedimentos realizados.

Um dos casos envolve uma mulher que chegou à unidade com quatro centímetros de dilatação e histórico de três cesáreas anteriores. Segundo familiares, ela foi encaminhada para uma cesárea de emergência, ocasião em que teria ocorrido perfuração na bexiga. A paciente, ainda de acordo com o relato, passou por sutura na bexiga junto ao útero e recebeu alta com sonda urinária, com orientação para permanecer com o dispositivo por 15 dias e retornar para reavaliação.

Em outro depoimento, Deise Elen relata em primeira pessoa o que afirma ter vivido na unidade. “Eu sofri violência obstétrica. Tive uma gestação difícil, fazia acompanhamento em outra unidade e minha gravidez era de risco por conta de uma infecção urinária crônica. No fim da gestação, eu estava com infecção de urina, anemia e pressão alta, e tive meu filho com 35 semanas.

Fui internada para indução do parto, mas, durante o processo, recebi muitos medicamentos fortes — tanto na veia quanto por via oral — e fiquei completamente sem controle do que estava acontecendo comigo. Em determinado momento, comecei a ter um sangramento intenso. Uma médica avaliou e disse que, se demorasse mais um pouco, eu e meu bebê poderíamos morrer. Eu já estava muito fraca, me apagando, depois de sangrar durante toda a madrugada.

A cesárea de emergência só foi realizada depois, já na troca de plantão, quando outra médica me avaliou e decidiu me encaminhar imediatamente para o centro cirúrgico. Foi por muito pouco. Eu saí de lá profundamente abalada e traumatizada com tudo o que vivi.

Além disso, as condições de higiene eram precárias. Não havia troca adequada de lençóis, os banheiros eram mal limpos e havia risco de contaminação. Foi uma experiência horrível, eu não quero nunca mais voltar lá.

Depois, meu filho, ainda com pouco mais de um mês, apresentou um quadro de meningite. Fiquei uma semana internada com ele. Mesmo com a suspeita, só fomos colocados em isolamento no último dia. Antes disso, eu estava em um quarto com outras mães e recém-nascidos. Ainda assim, chegaram a me dar alta. Graças a Deus ele melhorou, mas foi mais uma experiência muito difícil.”

Outro relato, também em primeira pessoa, é o de Lara, que descreve dificuldades e sofrimento em dois partos realizados na unidade.

“Há quatro anos, engravidei e tive um aborto espontâneo. Dois meses depois, engravidei novamente. Minha gravidez seguiu dentro do possível, apesar de sintomas fortes. No dia 1º de janeiro, às 18h, minha bolsa estourou, mas eu ainda não estava em trabalho de parto. Disseram que fariam a indução.

Começaram com um comprimido por volta das 22h, mas não fez efeito. Depois vieram o segundo, o terceiro e o quarto comprimido e, durante todo esse tempo, eu pedia para fazer cesárea, porque já não aguentava mais. Já tinham se passado mais de 24 horas. Só quando eu aumentei o tom de voz e exigi meu direito de escolha é que comecei a dilatar. Meu filho nasceu no dia seguinte, às 23h15.

No meu segundo parto, a situação se repetiu. Eu já estava há mais de três semanas indo ao hospital com 3 cm de dilatação e 40 semanas de gestação. No meu prontuário constava que eu tinha dificuldade de dilatação. Mesmo assim, eu pedia para ser internada e era recusada em todos os plantões. Ficava horas esperando troca de médicos para simplesmente me examinarem e me mandarem embora, dizendo que eu poderia voltar se precisasse.

Eu já não estava bem. Meus pés, mãos e rosto estavam inchando mais do que o normal. Procurei ajuda fora do hospital, porque sentia que algo não estava certo. Voltei à unidade e saí novamente com as mesmas dores e sem solução. Foi quando recorri às redes sociais e fiz uma postagem pedindo ajuda. Depois da repercussão, me internaram no mesmo dia.

Novamente iniciaram a indução. Faziam exames e minha dilatação não passava de 3 cm. Eu pedia cesárea, mas diziam que era preciso esperar os comprimidos. Após o segundo, nada mudou. No terceiro, comecei a sentir dores muito fortes. Fui ao banheiro e avisei as enfermeiras que minha filha estava nascendo. Elas disseram que precisavam me examinar antes. Eu insistia que não dava tempo, que ela já estava vindo.

Foi quando me debrucei no chão de tanta dor, e minha filha nasceu ali mesmo, no chão, na porta do banheiro.

Hoje, sofro com anemia e fraqueza desde esse parto. Só de falar em hospital, eu choro. Fiquei com um trauma muito grande.”


Foto: arquivo pessoal 

Um outro relato é o de Valéria Almeida, assistente social, que afirma acompanhar diversos casos semelhantes: “Sou assistente social, e tenho sido procurada por diversas mulheres gestantes que passaram pela maternidade do HMUT, em Taubaté. Elas relatam situações de sofrimento durante o parto, incluindo casos de perfuração de bexiga e de útero, além de longos períodos de permanência no centro cirúrgico.

Há também relatos sobre a condução do trabalho de parto, em que as gestantes permanecem por muitas horas ou até dias na tentativa de parto normal, sendo submetidas à indução e, após esse período de intenso desgaste físico e emocional, acabam sendo encaminhadas para a realização de cesárea.

Atualmente, coordeno um grupo de WhatsApp de apoio a mulheres gestantes e puérperas que tiveram seus filhos no HMUT. O grupo cresce a cada dia, com a chegada de novas participantes em busca de acolhimento, onde encontram outras mulheres que vivenciaram experiências semelhantes na maternidade.

Diante desse cenário, acredito que as políticas públicas voltadas às mulheres gestantes em Taubaté precisam ser ampliadas e fortalecidas, garantindo mais dignidade e promovendo o desenvolvimento humano. As mulheres relatam, de forma recorrente, a necessidade de que a maternidade seja projetada e construída em um espaço adequado, fora da estrutura atual do HMUT, além de uma reformulação na parte clínica dos atendimentos.”

As denúncias não seriam isoladas. A agente política Pitty Passos, que atua de forma independente, afirma que acompanha diversos relatos semelhantes. “Já cheguei a atender cerca de cinco gestantes ao longo de uma semana. Somando com outros tipos de casos, esse número pode chegar de 10 a 15 pessoas, dependendo do período”, afirma.

Familiares e apoiadores pedem que outras mulheres que tenham passado por situações semelhantes procurem a imprensa e registrem suas denúncias, com o objetivo de ampliar a visibilidade e pressionar por apuração.

Há ainda a informação de que um procedimento de investigação já foi instaurado anteriormente para apurar possíveis irregularidades, mas até o momento não houve desfecho.

Outro lado

Em nota a Administração do HMUT (Hospital Municipal Universitário de Taubaté) informou que abriu sindicância interna para apuração das denúncias.

Nós usamos cookies
Eles são usados para aprimorar a sua experiência. Ao fechar este banner ou continuar na página, você concorda com o uso de cookies. Saber mais