Os Albertos: os cronistas da ousadia, os arqueólogos da arte esquecida
Se a memória nacional tivesse uma esquina boêmia, com cheiro de papel antigo, eco de sarau e luzes de cabaré, os Albertos estariam lá de copo na mão e olhar curioso, garimpando histórias onde ninguém mais ousa procurar.
Alberto Camarero e Alberto de Oliveira, uma dupla que parece saída de um filme em preto e branco, vêm há mais de uma década iluminando os bastidores da cultura brasileira, revelando artistas, faquiresas, vedetes e visionários que o tempo tentou apagar.

Tudo começou em 2012, quando decidiram juntar suas paixões pela arte e pela pesquisa. Da união nasceu o livro “Cravo na Carne – Fama e Fome: O Faquirismo Feminino no Brasil” (2015), um verdadeiro mapa das mulheres que desafiaram corpo e moral nas arenas do faquirismo entre 1923 e 1959. Desde então, eles têm transformado memória em arte e história em resistência.
De lá pra cá, vieram filmes, livros, shows e espetáculos, todos marcados por uma mesma assinatura: sensibilidade, ousadia e rigor histórico. Em 2018, criaram o coletivo ATRUPE – Arte Desacato, reunindo no palco o que há de mais fascinante na cena underground paulista vedetes, transformistas, cantoras da noite e poetas da contracultura. E foi das pesquisas deles que a cineasta Helena Ignez extraiu o documentário “Fakir” (2019), um mergulho arrebatador no universo dos que fizeram da dor um espetáculo e da resistência uma arte.
Entre 2020 e 2025, os Albertos seguiram em marcha criativa, lançando filmes premiados como “A Senhora que Morreu no Trailer”, “O Grande Espanto de Dorothy Boom” (vencedor no Festival Internacional Rio LGBTQIA+), “Tira e Vira” e “Um Filme de Tira”, todos produzidos pela DGT Filmes. Paralelamente, publicaram obras de peso: “Suzy King – A Pitonisa da Modernidade”, “Divina Valéria”, “Eloína – Muito Além das Curvas”, “Silki – Um Tratado sobre a Arte do Faquirismo” e o recente “Tetragrammater – O Glamour Midiático das Mulheres de Deus”.
Alberto Camarero, veterano das artes desde 1968, é ator, artista plástico, cenógrafo e figurinista um verdadeiro camaleão criativo. Já Alberto de Oliveira, poeta e pesquisador, traz nas veias o ritmo da música popular brasileira e a alma da poesia moderna. Seu livro “Socos na Bailarina” (2024) é uma pancada lírica sobre os bastidores da arte e da existência.
Com prêmios, aplausos e muita pesquisa, os Albertos se consolidam como guardiões da memória não oficial do Brasil, escavando o passado para devolver humanidade e brilho aos personagens que ousaram ser diferentes.
Num país que tantas vezes esquece seus artistas, os Albertos nos lembram que a arte é feita de coragem. E que, nas palavras deles mesmos, “ressuscitar memórias é um ato de amor e também de resistência”.
Os Albertos - os cronistas da alma brasileira.