O Menino que Aprendeu a Sonhar com Monteiro Lobato
Hoje, 18 de abril, data de nascimento de Monteiro Lobato, as lembranças da infância voltam com ainda mais força. Foi através de suas histórias que aprendi a ler, a imaginar e a descobrir que os sonhos podem nascer dentro das páginas de um livro.
Há cidades que são apenas cidades. E há aquelas que nascem dentro de nós antes mesmo de sabermos o que é o mundo. Para mim, Taubaté nunca foi só um lugar no mapa, foi, desde cedo, um território de encantamento, onde letras viravam caminhos e histórias abriam portas invisíveis.
Foi através de minha tia paterna, Adalgiza Miragaia de Oliveira, que aprendi a ler com a obra de Monteiro Lobato e, mais do que isso, aprendi a imaginar. Enquanto muitos decifravam palavras, eu atravessava mundos. O Sítio do Picapau Amarelo não era um livro: era um lugar onde eu morava sem sair do lugar.
Eu sonhava com os bolinhos da amada Tia Nastácia, aprendia com a sabedoria do Visconde de Sabugosa, me encantava com os atos heroicos de Pedrinho, me aconchegava na bondade de Dona Benta, me deixava levar pela suavidade de Narizinho e, confesso, sempre me diverti, e talvez me reconheci, no difícil temperamento de Emília (risos). E acho, sinceramente, que sempre tive um pouco dela em mim.
Minha alfabetização não foi apenas um processo, foi um rito. Cada página era um convite para acreditar que a realidade podia ser ampliada, reinventada, sonhada. E foi assim que Taubaté, aos meus olhos de menino, deixou de ser apenas ruas e praças para se tornar um universo mágico, onde qualquer coisa era possível.
Mas o tempo, esse grande editor da vida, tratou de virar as páginas. E então veio o encontro com o Lobato adulto. Já não era apenas o contador de histórias infantis, mas o pensador inquieto, o homem de ideias firmes, o espírito crítico que não se acomodava. Foi ali que algo em mim se reconheceu.
Minha personalidade, intensa, questionadora, muitas vezes inconformada, encontrou eco nele. Descobri que aquele mesmo homem que me ensinara a sonhar também me ensinava a pensar, a confrontar, a não aceitar o mundo como ele é, mas como ele pode ser.
E assim, seis décadas se passaram.
Hoje, olho para trás e vejo que nunca deixei aquele menino. Ele ainda caminha por entre as páginas, ainda acredita no impossível, ainda encontra abrigo nas palavras. E ao mesmo tempo, carrego comigo o homem que aprendeu com Lobato a ter coragem de ser.
Monteiro Lobato deixou de ser apenas um autor. Tornou-se companhia, referência, inspiração terna e permanente.
Porque há mestres que ensinam. E há aqueles que nos formam para a vida inteira.
Lobato, para mim, sempre foi, e sempre será, esse segundo.