Monteiro Lobato Não Foi Esquecido... Só Mudou de País
Há telefonemas que chegam como chegam certas canções antigas: sem aviso, mas trazendo dentro delas um mundo inteiro.
Era domingo, 26 de abril. Manhã preguiçosa,
dessas em que a cidade parece ainda bocejar. E eis que toca o telefone. Do
outro lado da linha, uma voz querida soprada de muito longe, diretamente de
Cuba. Não a Cuba dos charutos e dos velhos Cadillacs de Havana. Cuba, Portugal.
Pequena cidade do Alentejo, de céu largo, luz dourada e silêncios que eu
conheci como quem conhece um amor tardio. Ali vivi dias que a memória guarda
com um capricho quase cruel de tão bonitos.
Meu amigo Stevan Lekitsch falava com aquele entusiasmo de quem tropeçou no
improvável.
— Dimas, olha que engraçado...
E eu já sabia, pelo timbre, que vinha história.
Contou-me que passeava por uma feirinha de primavera. Primavera europeia, essa estação que no hemisfério norte explode quando aqui o outono começa a ensaiar nostalgias. Barracas de artesanato, rendas, cheiros doces, gente passeando sem pressa. E então ele para diante de uma banca de amigurumi, aqueles bonecos de crochê que parecem saídos da delicadeza de uma avó paciente.

"BETE" a Artesã de Portugal
Foi quando os olhos dele desacreditaram do que viam.
Entre flores de linha, bichinhos de lã e enfeites
portugueses, estava ali, impávido, de cartola verde, sabugo na cabeça e
eternidade no sorriso: o Visconde de
Sabugosa.
Sim, o nosso Visconde.
Aquele sábio de palha nascido do delírio genial de Monteiro Lobato.
Confesso: levei alguns segundos para entender a
dimensão daquilo. Não era apenas um boneco. Era um pedaço do Brasil infantil,
literário e afetivo exposto numa feira primaveril de uma pequena cidade
portuguesa.
Stevan ria do outro lado:
— Eu perguntei pra moça se era mesmo o Visconde... e ela confirmou! Monteiro
Lobato é um sucesso aqui!
Aquilo me atravessou de um jeito curioso. Porque
nós, brasileiros, temos um talento quase perverso para ignorar nossos próprios
mitos. Deixamos mofar memórias, empilhamos nossos criadores em estantes
empoeiradas, tratamos nossos personagens como quinquilharias domésticas. E eis
que, num canto do Alentejo, uma artesã portuguesa modela em crochê um dos
maiores símbolos da imaginação brasileira, e as crianças reconhecem.
As crianças reconhecem.
Que frase devastadora.
Enquanto aqui tanta gente se esforça para esquecer, lá elas sabem quem é o
Visconde, sabem o que é o Sítio, sorriem diante daquele universo.
Stevan ainda me contou, entre gargalhadas, que
falou à artesã que tinha visitado o verdadeiro Sítio
do Picapau Amarelo. A mulher olhou para ele com a expressão divertida de
quem pensa: “esse brasileiro está delirando”. E no entanto era verdade. Nós
estivemos lá. Nós sentamos, anos atrás, com a naturalidade de quem não imagina
que um dia aquela lembrança cruzaria oceanos para voltar em forma de
telefonema.
Fiquei em silêncio por uns instantes depois que desliguei.
Há notícias que não são notícias: são pequenos avisos do tempo.
O tempo nos dizendo que a arte verdadeira não
respeita fronteiras, que personagens legítimos aprendem a viajar sozinhos, que
a infância bem construída vira passaporte eterno.
Monteiro Lobato
talvez nunca tenha imaginado que seu sabugo filosófico pisaria, ainda que em
linha e crochê, numa feira de primavera em Portugal.
Mas pisou.
E bonito.
No fundo, senti uma alegria misturada com uma pontada de vergonha nacional.
Precisou um amigo me telefonar de Cuba, no
Alentejo, para me lembrar que certas grandezas brasileiras são mais cuidadas
fora do que dentro de casa.
O Visconde estava lá.
De cartola.
Sereno.
Como quem dissesse, com a ironia dos sábios de sabugo:
— Eu sobrevivi a vocês.
Observação:
Com imensa alegria e gratidão, meu abraço atravessa o oceano para agradecer à
querida Entretengas
da Bete, do
Mercadinho Primavera, por manter viva, em delicadas linhas, crochês e afeto,
uma memória tão preciosa da infância brasileira. Ver o nosso eterno Visconde de
Sabugosa florescendo em terras portuguesas é constatar que a arte e a
imaginação não conhecem fronteiras. Obrigado por esse gesto encantador que
emocionou o coração de quem aprendeu a sonhar com o Sítio do Picapau Amarelo.
