logomarca T7News

Aniversário de Taubaté: nasceu em dezembro, comemora em fevereiro… e esquece o resto

Fica a pergunta, incômoda, mas necessária: Taubaté quer comemorar sua história… ou continuar fingindo que ela começou quando convém?

Dimas Oliveira Junior | Data: 04/02/2026 11:13

Afinal, quando Taubaté nasceu? Em dezembro ou em fevereiro? A pergunta, que deveria ser respondida com tranquilidade por qualquer estudante do ensino fundamental, hoje provoca constrangimento histórico e confusão institucional. Afinal, parece que a cidade resolveu ter duas datas, uma para a História e outra para o calendário oficial. Conveniente, talvez. Coerente, jamais.

Os fatos são teimosos. Taubaté foi fundada em 5 de dezembro de 1645, quando o povoado foi elevado à categoria de Vila de São Francisco das Chagas de Taubaté, por Jacques Félix. Esse é o marco fundador. É daí que se conta a idade da cidade. Ponto final. Em 2025, Taubaté completa 380 anos, goste-se ou não da matemática histórica.


Representação da Vila de Taubaté (Hernani Pereira) - colorizada por IA

Mas eis que, desde 2024, por força de lei sancionada pelo prefeito José Saud, o feriado municipal de “aniversário” passou a ser celebrado em 5 de fevereiro. Motivo? A data marca a elevação da vila à condição de cidade, ocorrida em 1842. Um evento importante, sem dúvida. Mas que não substitui nascimento. A não ser que agora cidades passem a nascer adultas, já com certidão revisada.

A pergunta é inevitável e incômoda: desde quando promoção administrativa equivale a fundação histórica?

O resultado desse arranjo é um paradoxo digno de estudo antropológico: Taubaté tem idade em dezembro, mas “faz aniversário” em fevereiro. Uma cidade que nasceu num dia, cresceu noutro e resolveu apagar o próprio passado no meio do caminho. Confuso para a população, desastroso para a educação histórica e revelador de uma relação, no mínimo, problemática com a memória.

E aproveitando, é sempre bom lembrar (coisa que Taubaté desconhece, infelizmente) que Taubaté, como cidade, foi até o início do século XIX um local de pouquíssima expressão. Por mais que os românticos insistam em enxergar dinamismo onde não havia, éramos essencialmente um pequeno centro burocrático, inscrito de forma tímida no roteiro das cidades do café. O interesse dos grandes fazendeiros nunca foi a cidade em si, mas a ligação direta entre suas unidades produtivas e os portos. Nesse contexto, tropas e tropeiros eram apenas agentes de passagem, não de desenvolvimento.


Taubaté em 1933 (Foto de Antonio Serra) - colorizada e restaurada por IA

Monteiro Lobato, mais tarde, cunharia o termo “cidades mortas”. Mas, sejamos honestos: nossos recantos, até bem recentemente, nunca tiveram robustez econômica ou função estratégica relevante. A verdadeira virada de página só acontece quando Felix Guisard e seus sócios decidem implantar a fábrica de tecidos “Companhia Taubaté Industrial” (CTI), rompendo com a lógica colonial, escravocrata e agrária que nos mantinha estagnados.

Ali, sim, houve uma revolução. Uma ruptura clara com um passado decadente. Vieram junto as vilas operárias, o trabalho feminino, o ruído das máquinas, as organizações de trabalhadores, a ideia concreta de modernidade. Pela primeira vez, Taubaté deixava de olhar apenas para trás e ensaiava um futuro.

Mapa da cidade de Taubaté no ano de 1821

E sabe o que mais chama atenção, hoje? A ironia cruel da coisa toda. Passamos diariamente pela Praça Felix Guisard (ou praça da CTI) e mal percebemos que ali repousa o tempo das utopias, das escolhas corajosas, da transformação que nos permitiu ser o que somos. A ausência de memória é tamanha que agora até a data de nascimento da cidade virou peça móvel, ajustável ao sabor do momento.

História não é detalhe. Não é acessório. Não se corrige por decreto. Celebrar a elevação à cidade é legítimo. Apagar ou confundir a fundação é imperdoável.

Fica a pergunta, incômoda, mas necessária: Taubaté quer comemorar sua história… ou continuar fingindo que ela começou quando convém?

Porque uma cidade que não sabe quando nasceu corre sério risco de não saber para onde vai.

 

Nós usamos cookies
Eles são usados para aprimorar a sua experiência. Ao fechar este banner ou continuar na página, você concorda com o uso de cookies. Saber mais