Aniversário de Taubaté: nasceu em dezembro, comemora em fevereiro… e esquece o resto
Fica a pergunta, incômoda, mas necessária: Taubaté quer comemorar sua história… ou continuar fingindo que ela começou quando convém?
Afinal, quando Taubaté nasceu? Em dezembro ou em
fevereiro? A pergunta, que deveria ser respondida com tranquilidade por
qualquer estudante do ensino fundamental, hoje provoca constrangimento
histórico e confusão institucional. Afinal, parece que a cidade resolveu ter
duas datas, uma para a História e outra para o calendário oficial. Conveniente,
talvez. Coerente, jamais.
Os fatos são teimosos. Taubaté foi fundada em 5 de dezembro de 1645, quando o povoado foi elevado à categoria de Vila de São Francisco das Chagas de Taubaté, por Jacques Félix. Esse é o marco fundador. É daí que se conta a idade da cidade. Ponto final. Em 2025, Taubaté completa 380 anos, goste-se ou não da matemática histórica.

Representação da Vila de Taubaté (Hernani Pereira) - colorizada por IA
Mas eis que, desde 2024, por força de lei
sancionada pelo prefeito José Saud, o feriado municipal de “aniversário”
passou a ser celebrado em 5 de fevereiro. Motivo? A data marca a elevação
da vila à condição de cidade, ocorrida em 1842. Um evento
importante, sem dúvida. Mas que não substitui nascimento. A não ser que agora
cidades passem a nascer adultas, já com certidão revisada.
A pergunta é inevitável e incômoda: desde quando
promoção administrativa equivale a fundação histórica?
O resultado desse arranjo é um paradoxo digno de
estudo antropológico: Taubaté tem idade em dezembro, mas “faz aniversário” em
fevereiro. Uma cidade que nasceu num dia, cresceu noutro e resolveu apagar o
próprio passado no meio do caminho. Confuso para a população, desastroso para a
educação histórica e revelador de uma relação, no mínimo, problemática com a
memória.
E aproveitando, é sempre bom lembrar (coisa que Taubaté desconhece, infelizmente) que Taubaté, como cidade, foi até o início do século XIX um local de pouquíssima expressão. Por mais que os românticos insistam em enxergar dinamismo onde não havia, éramos essencialmente um pequeno centro burocrático, inscrito de forma tímida no roteiro das cidades do café. O interesse dos grandes fazendeiros nunca foi a cidade em si, mas a ligação direta entre suas unidades produtivas e os portos. Nesse contexto, tropas e tropeiros eram apenas agentes de passagem, não de desenvolvimento.

Taubaté em 1933 (Foto de Antonio Serra) - colorizada e restaurada por IA
Monteiro Lobato, mais tarde, cunharia o termo “cidades
mortas”. Mas, sejamos honestos: nossos recantos, até bem recentemente,
nunca tiveram robustez econômica ou função estratégica relevante. A verdadeira
virada de página só acontece quando Felix Guisard e seus sócios decidem
implantar a fábrica de tecidos “Companhia Taubaté Industrial” (CTI), rompendo
com a lógica colonial, escravocrata e agrária que nos mantinha estagnados.
Ali, sim, houve uma revolução. Uma ruptura clara com um passado decadente. Vieram junto as vilas operárias, o trabalho feminino, o ruído das máquinas, as organizações de trabalhadores, a ideia concreta de modernidade. Pela primeira vez, Taubaté deixava de olhar apenas para trás e ensaiava um futuro.

Mapa da cidade de Taubaté no ano de 1821
E sabe o que mais chama atenção, hoje? A ironia
cruel da coisa toda. Passamos diariamente pela Praça Felix Guisard (ou praça
da CTI) e mal percebemos que ali repousa o tempo das utopias, das escolhas
corajosas, da transformação que nos permitiu ser o que somos. A ausência de
memória é tamanha que agora até a data de nascimento da cidade virou peça
móvel, ajustável ao sabor do momento.
História não é detalhe. Não é acessório. Não se
corrige por decreto. Celebrar a elevação à cidade é legítimo. Apagar ou
confundir a fundação é imperdoável.
Fica a
pergunta, incômoda, mas necessária: Taubaté quer comemorar sua história… ou
continuar fingindo que ela começou quando convém?
Porque
uma cidade que não sabe quando nasceu corre sério risco de não saber para onde
vai.