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A volta dos Panteras Negras e a guerra do governo contra os seus cidadãos

O pesadelo da sociedade norte-americana está de volta, desta vez no contexto high-tech.

Marcos Limão | Data: 19/01/2026 19:46

É sintomático o retorno às ruas dos EUA do movimento dos Panteras Negras, com homens vestidos com roupas pretas, empunhando armas de longo alcance e promovendo diligências pelas ruas com o intuito de combater a violência policial.

O pesadelo da sociedade norte-americana está de volta, desta vez no contexto high-tech.

Ao que tudo indica, o estopim teria sido o assassinato de uma mulher de 37 anos pelo ICE (o serviço de imigração vinculado ao Departamento de Justiça), ocorrido na cidade de Minneapolis no dia 07/01/2026. Ela foi baleada três vezes através da janela do carro após se recusar a sair do veículo.

Como se não bastasse, o Governo Trump decidiu investigar os familiares da vítima, ao invés dos policiais, além do prefeito Minneapolis e do governador de Minnesota que se posicionaram contra a violência policial.

A organização não governamental The Trace revelou que, sob o Governo Trump, os agentes do ICE abriram fogo contra civis em pelo menos 15 oportunidades. Outros vídeos divulgados na internet denunciam agentes do ICE invadindo casas sem mandado judicial para prender imigrantes.

O retorno no movimento negro e armado é um desdobramento inafastável dos novos tempos, em que predomina a vigilância total e a repressão extrema do governo contra os seus próprios cidadãos.

Trata-se, na realidade, de uma guerra interna travada pelo governo dos EUA mediante a utilização de táticas militares de contra insurgência desenhada sob três eixos fundamentais: (1) a obtenção total de informações, (2) a erradicação da minoria ativa e (3) a conquista da lealdade da população em geral.

O fenômeno está muito bem descrito por Bernard Harcourt no livro “A Contrarrevolução: como o governo entrou em guerra contra os próprios cidadãos”.

De acordo com o autor, a população norte-americana passou a ser alvo de estratégias militares de contra insurgência sem a presença de uma insurgência de fato na sociedade, razão pela qual armamentos bélicos utilizados em guerras convencionais pelos EUA são direcionados para as polícias locais depois de um tempo de uso.

Dentre as ofensivas militares, está a vigilância total, com o máximo de obtenção total de informações sobre as pessoas, pelas redes sociais ou por outros meios.

Quem já esqueceu da presença dos donos das big-techs no evento de posse do presidente eleito Donald Trump?

Informações capturadas pelo sistema Flock Safety, a maior rede privada de vigilância veicular dos EUA, passaram a ser utilizadas por agências federais de imigração para rastrear e reportar pessoas. A empresa tem cerca de 90 mil câmeras em mais de 4 mil cidades.

O serviço que era para proteger, virou arma de guerra. E, como consequência, câmeras de vigilância da Flock Safety passaram a ser destruídas pelas pessoas no desespero por privacidade e segurança, porque a empresa também promove reconhecimento facial e acompanhamento de pessoas pelas ruas, compartilhando os dados com as forças de segurança.

Na América Latina, a maior sistema de monitoramento de segurança está instalado na cidade de São Paulo, com câmeras promovendo reconhecimento facial.

Importante mencionar que a contra insurgência descrita por Bernard Harcourt não é somente uma estratégia militar, mas sim uma tática política, visto que que o principal objetivo da contra insurgência é a obtenção do apoio da maioria da população.

Afinal, como ensinou Karl von Clausewitz (1790/1831), a guerra nada mais é do que a continuação da política por outros meios.

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